Relatos de uma menina estrela:
" É que sempre foi assim aqui em casa. Sempre teve disso. Era normal. Quando eu era criança, não, minto, acho que até semana passada eu culpuva a bebida. Só acontecia quando ele tava bêbado. Acho que nunca vi ele bater nela sóbrio. Não até hoje. É que é difícil. Mesmo, um caco, ele é meu pai.
E eu digo meu pai, com amor e ódio ao mesmo tempo. Por que ele é um bom pai. Tem aqueles defeitos que todo mundo conhece, aqueles problemas e td, e claro tem a bebida, mas ele é meu pai. Ele me ensinou a andar de bicicleta, e me ensinou a gostar de livros, ele me ensinou a cuidar dos meus irmãos. Ele é meu pai. Mas ele n maneira na mão. Nunca maneirou.
Como eu disse eu culpava a bebida, sempre cuipei. Mas eu estava errada. Não é a bebida que motiva a surra, é a irá. É raiva. É o poder fazer isso. E é nesses momentos que eu o odeio.
Por que ele bateu nela. De novo. Começou com uma discussão idiota, meio sem noção. Estava tudo ótimo a semanas, tudo maravilhoso. Até agora. Até eles começarem a gritar, eu já fico toda alerta né, tremendo. Com medo do que vai acontecer. Ainda n sei o que é pior, de verdade, a surra física, ou a falada. Não sei o que é ruim.
Mas ele sabe. Que nem um touro bravo, bota medo em todo mundo, assusta todo mundo. Da aquele pavor sabe? Minha irmã ja corre pro quarto e começa a chorar em desespero. Tadinha tão pequena, não sabe o q fazer. Eu vou pra cima, eu grito, eu seguro, eu choro, eu me machuco. Meu irmão também. É humilhante ter medo do próprio pai, e dói muito. Mesmo. Pq eu o amo. Apesar de td. Amo mesmo.
Mas ele vem com toda a força, e empurra e grita " me respeita", mas eu te pergunto, respeito se consegue com medo? É assim que se conquista alguém? Assustando? Eu não sei. Não acho que deveria ser assim. Ahh mas ele acha que sim, e se joga em cima da minha mãe,e segura o cabelo dela. E eu grito:
"Para vc prometeu q não faria mais" mas diz ai, quando que o agressor cumpre sua promessa?
E eu grito de novo " e se fosse eu? E se um homem fizesse isso comigo?" E ele nem liga. A furia cegando seus sentidos. Meu irmão também grita. Tb chora. Tb puxa. E minha mãe fica lá. Indefesa, chorando, desesperada. E meu coração corta, pq porra! São meus pais. Não era pra ser assim. Não era.
Mas ele continua, e então fazemos ele soltar dela. Ai a vítima sou eu. " Vc quer me bater menina estrela? Bate! Bate na minha cara! Bate! " Mas quem vem me bater é ele, n chega a levantar a mao. Só empurra. Acho q a consciência de pai pesa para ele.. até quando eu não sei.
" Cresce desse jeito sua lazarenta. Cresce assim folgada. Feminista folga q vai sofrer a vida toda!" E eu finjo nao ouvir, pq logo depois ele destila mais algumas ofensas para minha mae. E meu foco é ela. Que chora. Q puxa os filhos pra trás dela. Que fica tentando me proteger. Enquanto eu tento fazer ela entender " mãe. Vc precisa de proteção, não eu".
Ai mais meia hora de terror ele desce. Fica na sala. La. Pensando ou falando sei la o que. E minha ta jogada na cama. Chorando. E eu sei que ela não é fácil, sei que muita coisa q ela fala machuca, sei q ela tb n é santa, n é inocente, mas será q isso vale a surra? Será que isso vale a dor de apanhar de uma pessoa que só deveria te dar amor?
E não da pra mim chegar em uma amiga e simplesmente falar "caralho meu pai socou minha mãe", eu n posso. Sabe pq? Pq minha família é perfeitinha. Eu tenho de td de certa forma. E meu pai, bom ele é maravilhoso quando quer. Eu n quero q as pessoas o vejam como um monstro, pq pra mim ele n é. É complicado isso de família.
E eu, menina estrela, ainda me pergunto como uma pessoa maravilhosa como ele. Q tem dó de bichinho na rua, q le histórias para oa filhos na hora de dormir, que compra td q precisamos. Q sabe? Consegue ser tão sensível. Se transforma de uma hora para a outra?
Agora ele tá la em baixo. Sofrendo. Remoendo o q fez e se perguntando se exagerou. Eu vi o pânico no rosto da minha irmã. Eu vi o desespero no do meu irmão. Eu vi o meu próprio medo refletido nos olhos da minha mãe e digo " é cara, vc exagerou".
E mais tarde ele sobe todo arrependido. Chorando, pedindo perdão. E eu te pergunto quantas mais desculpas são necessárias para uma tragédia de verdade acontecer? Eu tenho medo. Mais por ela do q por mim.
E ela tá lá. Na cama. Sem saber o q fazer. Pra onde q ela vai agora? Família dela n existe mais aqui. Tem três filhos. N da pra deixar pra tras.
Sabe essa realidade minha? É a de muita gente. Casar? Bom eu as vezes até fantasioso, mas td vez q eu vejo isso eu sei q jamais vou conseguir. N confio em homem algum. E nunca vou confiar. Pq eu tenho medo. Medo de verdade de ficar presa como a minha mãe.
E de certa forma como meu pai tb.
E eu os pergunto... quem vai me socorrer?
Menina estrela.
Ass: Rafaela Maciel
R.T
Nenhum comentário:
Postar um comentário